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sábado, 14 de fevereiro de 2015

Um olhar crítico sobre a liturgia da cura do leproso

"Os diferentes tipos de lepra hoje"

Existem muitos “tipos” de lepra hoje, mas o mais nocivo e que contamina a todos é a lepra chamada CORRUPÇÃO, cuja “bactéria” é a GANÂNCIA, o apego desordenado ao dinheiro, “a raiz de todos os males”, segundo a Escritura (cf. 1Tm 6,10). Desde o mais alto escalão do governo até o brasileiro mais simples, obviamente com algumas poucas exceções, todos estamos contaminados com a lepra chamada CORRUPÇÃO, lepra que causa DORMÊNCIA em nossa consciência e a consequente PERDA DE SENSIBILIDADE para com quem sofre, vítima da corrupção praticada também por nós.
Exemplos cotidianos de corrupção: pais que pagam escolas particulares e dão presentes caros aos filhos usando dinheiro obtido com desonestidade; funcionários que conseguem atestados falsos de médicos corruptos para ficarem afastados do trabalho; empregados que trabalham três meses e fazem de tudo para serem demitidos e se beneficiarem com o seguro desemprego; fiscais e policiais que recebem propina para não aplicarem multa ou para não punirem os infratores; juízes que vendem sentenças para manter em liberdade grandes traficantes e políticos; empresas que financiam campanhas políticas para depois se beneficiarem do desvio de dinheiro praticados pelos políticos eleitos; pessoas de boa condição social que se cadastram para receber remédios gratuitos, destinados à população carente etc. Em termos de corrupção, difícil dizer quem de nós não é hoje um leproso. A maioria de nós está convencida de que, no Brasil, a lepra compensa (para não dizer “o crime compensa”).
Segundo o Papa Francisco, quem paga o preço da corrupção é o pobre, são os hospitais sem remédios, os doentes que não têm acesso a tratamento, as crianças sem acesso a uma boa educação. Para curar o leproso, Jesus estendeu a mão e tocou nele (cf. Mc 1,41). É de se espantar que hoje os nossos dedos toquem com agilidade a tela ou o teclado de um celular, mas não têm a coragem de tocar naqueles que são a pele de Cristo: “Os pobres, os abandonados, os enfermos, os marginalizados são a carne de Cristo” (Homilia do Papa Francisco em 12/05/2013). É de se admirar que em muitos lares, marido e mulher, pais e filhos se encontrem dentro de uma mesma casa, teclando com outras pessoas pelo celular, mas não conseguem comunicar-se, como se tivessem perdido o jeito de tocar um no outro. É a lepra do isolamento, contaminando famílias e apodrecendo relacionamentos.
Eis a cura para a nossa lepra: “Quer comais, quer bebais, quer façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus. Não escandalizeis ninguém,... nem a igreja de Deus” (1Cor 10,31-32). O escândalo da corrupção precisa ser eliminado também em nós, simples cidadãos, e não só no Executivo, no Legislativo e no Judiciário. Trata-se de não ficar buscando apenas o que é vantajoso para nós mesmos, mas buscar o que vantajoso para todos, para o bem da sociedade e da humanidade (cf. 1Cor 10,33). Trata-se de aceitar o mesmo processo de purificação pelo qual passou Naamã, o leproso: descer quantas vezes for preciso ao rio de Deus, que é o Espírito Santo, e permitir que as suas águas limpem nossa consciência de todo vestígio de corrupção, devolvendo-nos a inocência, a verdade e a retidão de uma criança (cf. 2Rs 5,14).  
“Se queres, tens o poder de curar-me” (Mc 1,40). O Evangelho de Cristo tem o poder de nos curar, de nos devolver o temor a Deus, o respeito para com os outros, o cuidado para com aquilo que é público, a decência, a honestidade... Deixemo-nos tocar por Jesus, pelo seu Espírito, pelo seu Evangelho. Além disso, colaboremos com Jesus na erradicação da lepra em nossa sociedade, adoecida pelo individualismo e pela indiferença: estendamos nossa mão a cada dia para tocar no necessitado, naquele que ninguém enxerga, por quem ninguém se interessa...

 fonte:dos escritos do Pe. Paulo Mazzi

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