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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Artigo:Religiosidades pós-modernas

Amor ao próximo e renúncia ao status formam a base ética do cristianismo, em real oposição aos poderes do mundo: “entre vocês não deve ser assim...” (Mc 10,43).
A prática celebrativa da Igreja nascente manifestava que essa ética constituía o específico do cristianismo: “viviam unidos e tinham tudo em comum” (At 2,43). Liturgia e vida correspondiam, assim, a uma realidade intrínseca: aquilo que se celebrava no partir do pão correspondia ao exercício cotidiano dos seguidores e seguidoras do Ressuscitado. Ao passo que o cristianismo vai, cada vez mais, instituindo-se como religião, ele vai perdendo essa importante dimensão das origens, num processo de descaracterização de seu específico.
Atualmente, é próprio das religiosidades pós-modernas um acento subjetivista no culto e na maneira de viver a fé. As igrejas católicas e evangélicas cedem ao interesse emocional de seus fiéis, o que torna a ética uma realidade cada vez mais distante do testemunho de fé dos membros dessas igrejas. O individualismo tomou conta dos espaços de manifestação da fé: pessoas encontram-se semanalmente para as celebrações, mas sequer conhecem umas às outras, não se criam laços de pertença comunitária e de partilha de vida. A tendência, sempre maior, é de busca de refrigério para os males psíquicos e emocionais: importa, nesse caso, uma religiosidade com efeitos psicossomáticos. Não sem motivos, as missas de cura e libertação arrebanham uma massa sem fim de fiéis, que, se repararmos, nunca está devidamente curada e liberta.

Uma religiosidade que se diga cristã, vivida desse modo, nada tem dos valores fundamentais do cristianismo das origens. Essa é uma religiosidade apolítica, pois não nutre a convivência e a solidariedade entre os convivas que se reúnem ao redor da mesma mesa. Essa é uma assembleia que se esquece que o Reino é para todos, com sério comprometimento ético, e que por isso Jesus nos ensina a rezar Pai-nosso, insistindo em cantar “meu Pai, meu Pai, meu Pai do céu”, com os olhos vertendo lágrimas e o coração anestesiado. Sem o comprometimento ético com aqueles que fazem coro à nossa voz e professam a mesma fé, a ética que devemos viver no cotidiano, em atenção a todos e todas, não é possível. Isso porque uma religião que se pretenda cristã, que não gere imperativos éticos, na realização da verdadeira Política, não passa de magia: os fiéis, clientes buscando experiências pessoais de satisfação; os líderes religiosos, magos que ofertam um serviço, ao gosto dos clientes. Mas não nos enganemos: “comungar é tornar-se um perigo”, já cantava a velha canção.

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